Brigada Mandu Ladino - Índios e Vaqueiros
Literatura

Mandu Ladino, the book: the open veins of Piauí

Luiz Ayrton Santos Junior’s review of Anfrísio Neto’s novel, 2006 (in Portuguese).

By Luiz Ayrton Santos Junior 5-minute read

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Mandu Ladino, o livro. Aos 14 anos tive o prazer de ler o livro “As Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano que julgo ser o mais importante livro que já li: jogou-me de vez da infância para a adolescência numa Recife, agora antiga, onde morava. Fiquei mais politizado, de cara me “filiei” ao Partido Comunista Brasileiro, acompanhando Roberto Freire nos meus primeiros tempos de faculdade. Minha razão ficou mais afiada, me tornei mais crítico das gerações anteriores a mim (nunca mais confiei nelas, principalmente nas gerações do Piauí), mas por outro lado, me tornei mais certo de que devemos ser como somos e que tudo vale a pena e que nenhuma luta será em vão. Não tenho dúvidas que o livro me fez ficar com uma visão mais macro da vida, e meus colegas de então, poucas importâncias davam aos meus elogios ao livro. Nenhum dos livros que li depois, e não foram poucos, me fez valer tanto como aquelas belas e inteligentes páginas.

Morando em Terezina e vivenciando odisséias culturais piauienses, tenho buscado entender um pouco sobre Mandu Ladino, esse herói libertador, o mais nobre dos piauienses e que pouca gente fala dele e conhece. Na roda de meus amigos, alguns dizem que eu “invento moda”, pois nunca ouviram falar desse “índio” e só pode ter “saído da mente fértil do Luís”. Indos e vindos, até fui achado na internet por um piauiense que mora em Salvador para formar uma “Brigada Mandu Ladino” para a construção de um memorial ou lutar para a que a BR para Parnaíba leve o seu nome. Não tenho mais informações do amigo da internet e perdemos o contato, mas minhas pesquisas continuaram.

Um belo dia, fui um dos felizes convidados para o lançamento do livro “Mandu Ladino” de Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco. No primeiro momento, veio-me a satisfação que não estava tão só nesta luta. O lançamento foi fantástico, auditório repleto de gente, com a inteligentsia piauiense toda presente, as palavras, os dizeres e as expressões faciais do autor um espetáculo à parte, seus comentários sobre o personagem Aluhy, um delicioso segredo para os presentes, a diagramatização do livro, a estilosa capa e a impressão de extensa qualidade, já demonstravam-me, claramente, que não estava vivendo um momento qualquer. Todavia, iniciava-se um desafio: como ler um romance de quase 500 páginas para alguém que já não tem mais tempo para nada? Bom, comecemos… no início, vemos que o livro não tem um texto comum, os capítulos descrevem fatos claramente diferenciados, mas instiga em que os lê, que haverá um encontro deles mais à frente. Misturar fatos históricos com romanescos já é uma fórmula antiga para um romance fazer sucesso, entretanto nesse livro, o autor busca a lado histórico que desconhecemos e na singeleza de suas palavras, tudo nos parece muito histórico e muito bem real.

Lê-se, do começo ao fim, sem vontade de pular uma linha, pois, desenvolve-se uma incômoda necessidade de sabermos tudo o que ocorreu e como ocorreu aquela incrível história. Poucos livros nos levam a sonhar, páginas por páginas, como um filme e este livro é um deles. O que se lê, ora é escrito num bom português, ora num tupi-guarani ou mesmo num bom piauiês, que se misturam numa deliciosa fusão. São incríveis fatos históricos vivenciados, um romance que se aproxima da realidade como de fato ela existiu. O livro é cheio de heróis reais, que parecem estar ali ao nosso lado. Uma verdadeira aula de geografia, história, culinária e gastronomia, estratégias militares, indigenismo, botânica, ecologia, de uma perfeição de nos excita página a página, letra a letra. Um corte rasgante na nossa auto-estima de piauiense. O coração fica à flor da pele em todos os momentos. Aventura pura. As páginas eróticas são outro exemplo da bela abordagem do texto, não são pornográficas, incomuns na literatura brasileira. E, na ardilosidade do autor, escrever um texto dialético, sem que ninguém descubra para que lado ele torce.

Não tive dúvida, presenteei o livro ao cineastra Hector Babenco, que tenho contatos pessoais, pois, trata-se de uma espetacular viagem ao antigo tempo brasileiro, muito pouco documentado, o encontro real da nossa histórica civilização do couro, nosso orgulho, nossa altivez.

E, afinal, onde vivia esse autor poderoso? Escondia-se apenas nas prescrições de seu dia-a-dia como médico? E afora, até quando andará novamente recluso? Podem essas perguntas não ser respondidas, até pelo próprio autor, pois não se escreve uma obra-prima sem trabalho, mas, sobretudo, não se escreve uma obra-prima todo dia. O livro Mandu Ladino é uma obra-prima. Uma obra-prima. Uma obra-prima. Uma obra-prima. Uma obra-prima e que, numa incomensurável felicidade, encontrei onde estão as veias abertas do Piauí

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