Mesmo banido de vários documentos oficiais e tratado como cidadão de segunda categoria, incompreendido para os padrões europeus vigentes, o índio Mandu Ladino é real, existiu e está registrado em vários documentos antigos. Mais do que nunca, são realçados seu amor aos “Sertões de Dentro” – como o Piauí era conhecido. De 1712 a 1719 procedeu várias lutas pela expulsão dos europeus que aqui chegavam para instalar fazendas criadoras de gado.
Quem foi Mandu
O índio Mandu Ladino nasceu provavelmente por volta de 1689, numa aldeia no Piauí, entre as cidades de Campo Maior (ex Bitorocara) e Castelo do Piauí (ex Marvão).
Ao completar 8 anos, em 1697, teve sua aldeia invadida e todos foram mortos com exceção do pequeno curumim, que os portugueses deram o nome de Manuel.
Manuel foi encaminhado aos jesuítas que o educaram num mosteiro na Paraíba. Aos 17 anos, Manuel foge do Mosteiro e volta ao Piauí, Catequisado, conhecedor de noções sobre Cristo e falando português, ia recolhendo índios perdidos encontrados pelo caminho de volta no nordeste brasileiro.
A partir de então passa a reunir outras tribos ainda presentes em território piauiense, convencendo-os da necessidade de lutar contra os fazendeiros que ora se instalavam ali.
Ao promover o primeiro ataque a uma fazenda, com flechas em fogo, destruiu várias fazendas com incêndios. Como se chamava Manuel, passou a receber o apelido de Mandu e, posteriormente de Mandu Ladino, ladino como conotação por ser esperto, rápido, que não se rendia fácil.
De 1712 a 1719 empreendeu várias guerras contra os bandeirantes e os portugueses que se instalavam nas terras piauienses. No rebate, os índios eram atacados com armas de fogo e muitas vezes surpreendidos, perdiam guerras. As espertezas e as estratégias de Mandu fizeram os índios vencer várias batalhas, que foram realizadas na parte central do que chamamos hoje de Estado do Piauí.
Por volta de 1718, francamente enfraquecido, Mandu e seu bando passam pela Serra da Cangalha, onde hoje existe a cidade de Pedro II, e vão em busca da ajuda dos Tabajaras, índios antropófagos que viviam na Serra da Ibiapaba. Essa tribo era também temida pelos familiares de Mandu, pois costumavam expor ao ar livre as cabeças dos homens que venciam em guerras, enfiando-as em toras de madeira.
Ao encontrar essa tribo onde hoje é a cidade de Viçosa, Mandu percebe que os Tabajaras estavam catequisados pelos Jesuítas, que espalhavam conhecimentos cristãos pela Serra da Ibiapaba.
Convencido de que os Tabajaras não eram mais guerreiros, Mandu volta ao Piauí e perde sua última batalha com seus guerreiros, velhos e cansados e em número muito inferior.
Seu corpo foi enterrado num “morro de nome Ladino, em volta de cavernas com inscrições indígenas”, como se pensava antigamente, nas cercanias onde hoje se encontra a cidade de Alto Longá, no Piauí.
Para que não houvesse romarias a seu túmulo, a elite fazendeira divulgou que Mandu havia morrido no Rio Igarassu, em Parnaíba, braço do antigo Rio Grande dos Tapuias, hoje Rio Parnaíba, para que todos pensassem que seu corpo vagou mar adentro e assim seriam evitadas as romarias e a preservação de sua memória.
Um herói da resistência
Resgatado órfão de uma tribo atacada por portugueses, Mandu foi entregue e educado por jesuítas na Paraíba (ou Pernambuco?) dos 6 aos 17 anos quando fugiu de volta ao Piauí. Conhecendo noções de religião, de Cristo, educação social européia, servia como um importante tradutor do tupi para a língua portuguesa na época. Seu trecho de retorno da Paraíba ao Piauí tornou-se uma trilha de grande interesse sócio-cultural.
Mesmo vencedor em várias batalhas, Mandu perdeu heroicamente a guerra contra os europeus. Se tivesse tido êxito, teríamos o primeiro país independente indigenista mundial. Mandu é, para os índios e para a contemporaneidade cultural brasileira, o que Zumbi representa para os negros.
Mandu é, para os índios e para a contemporaneidade cultural brasileira, o que Zumbi representa para os negros.
Resgata-se, com a Brigada Mandu Ladino, a história deste espetacular brasileiro, figura chave do maior etnocídio ocorrido nas Américas. O Piauí é o único estado que não tem índios no Brasil.
Com o intuito de manter acesas as suas ideias e, por gratidão à sua luta, a Brigada Mandu Ladino, organiza a construção de um monumento em prol de sua gloriosa história.