Brigada Mandu Ladino - Índios e Vaqueiros
Literatura

Um encontro com Mandu é um deleite

Resenha de William Tito sobre o romance histórico Mandu Ladino.

Por William Tito Leitura de 6 minutos

O romance histórico Mandu Ladino tem ganhado vários admiradores. A categoria literária menos prolífica no Piauí que está qüalhado de poetas, é quase uma raridade. Lançado já há alguns meses despretensiosamente, sem grandes alardes, muito parecido com a sobriedade do autor. Segundo Anfrísio Neto foram 6 anos para o livro ficar pronto, disponível para o leitor. Mandu um personagem indígena histórico descendente da extinta tribo dos Abelhas que findou com sua captura. Devido ao distanciamento do tempo em que passaram suas aventuras e, principalmente, por que foi vencido pelos brancos, pouco ou nada se sabe comprovadamente sobre sua vida e trajetória. Munido das poucas informações e de uma imaginação muito fértil, o autor partiu para a criação. Desde criança, Anfrísio nutria interesse pelas estórias, lendas e conversas sobre o índio. A inspiração do autor para escrever vem amadurecendo desde a mais tenra idade.

O volumoso livro com 485 páginas consegue manter a regularidade do interesse do leitor. Venci-o sem dificuldades, mas não sou exemplo. Leio perenemente com voracidade. Assuntos mais árduos, linguagens mas complexas e abordagens diversas e desafiadoras não encontro grandes dificuldades. Um encontro com Mandu é um deleite. Anfrísio é um vitorioso, tal qual Mandu. Ele venceu o lugar-comum, o provável e o previsível. A história se passa facilmente, em alguns momentos com uma capacidade descritiva imagética tão portentosa que nos remete a roteiro de cinema, com certeza, algum dia vai caminhar para esse desfecho cinematográfico. Aliás se a indústria do cinema brasileiro tivesse uma força pelo menos semelhante a dos americanos, Mandu já teria várias películas abordando sua expressividade de formas diferentes.

A criação da personagem Aluhy, a suposta irmã de Mandu, oferece no início maior sustentação no interesse da leitura. Aluhy vai cedendo terreno com o decorrer da páginas para Mandu. Óbvio que teria que ser assim. Mas deixa saudades. O autor faz o personagem crescer na introdução e depois praticamente a abandona. Somente próximo ao final é que ela volta tenuamente. Aluhy é um personagem vigoroso, merece até outro romance.

A valorização do quarteto de amigos que fogem da Paraíba e se embrenham nos sertões de dentro do Piagohy, a suposta morte de Cumari, o reencontro com Timbó e o surgimento do desaparecido e escravisado Pato Manco no final, demonstram a poderosa vocação romancesca do autor que se aproveita de detalhes que poderiam passar despercebidos. Mas ele consegue dar um valor extra a personagens aparentemente frágeis e sem importância. Os personagens tem valores bem definidos na construção do urdimento da trama. Essas surpresinhas fazem de Mandu Ladino um romance marcante que ganha seu espaço entre os bons livros dos últimos tempos editados no Piauí, com autor piauiense e a história fascinante do índio que enfrentou os colonizadores brancos com perspicácia e argúcia ímpar. Sua capacidade de guerrear sempre em desvantagens de força, contra a mortal mokaba (arma de fogo em tupi-guarani antigo). É um verdadeiro manual de guerrilha. Faz-nos pensar saudosamente nos índios que viveram nessas terras e que estão misturados com o miscigenado piauiense que guarda suas características no enfrentamento diário pela sobrevivência nos recônditos longíquos desse estado. O autor aproveita e vai apresentando as construções das igrejas católicas e seus primeiros vigários como marco das vilas que seriam as importantes cidades piauienses.

Tenho um agradecimento particular ao autor que muito sabiamente povoou seu livro de vocábulos e expressões em tupi-guarani, exaltando a beleza do idioma com naturalidade. Em mim causou um interesse maior pela língua e já estou estudando Método Moderno de Tupi Antigo – A Língua do Brasil dos Primeiros Séculos de Eduardo de Almeida Navarro que em breve vai estar lançando um dicionário de Tupi Antigo.

O livro poderia ter uma encadernação mais primorosa. A capa colada ao recheio de páginas que estão costuradas não resiste ao manuseio e se solta facilmente. Um livro volumoso como Mandu Ladino precisa ter uma acabamento mais resistente. Vou ter de fazer um ajuste para iniciar a segunda leitura. A capa é um primor a parte. Chamativa, uma cor pouco usual, vinho tinto quase açaí. Um trabalho artístico muito bem desenvolvido e resolvido esteticamente pelo craque das artes gráficas Paulo Moura.

Poderia passar mais um bom tempo escrevendo minhas impressões sobre o livro, mas não tenho nenhuma pretensão de demorar-me que não seja o suficiente para imprimir nos leitores desse blog o interesse em buscar ler esse gostoso livro. Quem o fizer vai ver e sentir que é muito mais do que essa resenha. É de uma dimensão superior. Creio até que, em breve, Mandu Ladino será leitura obrigatória para aqueles que vão tentar vestibular, dada sua importância.

Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco, médico psiquiatra. Pela formação vai uma dica de como os personagens tem sua personalidades bem construídas. Suas fraquezas e suas forças pessoais estão bem explicitadas por que o autor conhece bem a alma humana. Anfrísio foi reitor da UFPI. Lembro-me de muitas vezes em que eu, João Cláudio e outros colegas que iniciavam o curso de comunicação social em 1988 aguardávamos ele passar para o CCHL. João estava estudando-o para imitá-lo, mas ele admitia que não era tarefa das mais simples. Nós do MAU, Movimento Anarquista Universitário, estudávamos alguma forma de complicar sua gestão. Puro arroubo de jovens pensantes que observavam a firmeza da postura do magnífico reitor, no fundo nós nutriamos certa admiração pelo homem que impunha respeito. Hoje Anfrísio é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Em uma rápida conversa que tive com ele durante o SALIPI, momentos antes de ser entrevistado pelo professor Romero no Bate-papo literário, perguntei se questionavam ou faziam associações de seu sobrenome com o Tenente-coronel João do Rego Castelo Branco, el matador, uma das figuras históricas que, provavelmente, mais matou índios piauienses e que viveu bem depois de Mandu, responsável pela última fase da conquista como revela Monsenhor Chaves. Anfrísio admitiu que era questão recorrente, mas que não sentia-se constrangido com a pergunta. Nem acha que está fazendo qualquer mea culpa ao debruçar-se sobre o tema. Ele afirma que admira Mandu Ladino. Para ele é um herói da resistência. Como qualquer homem corajoso defendeu seu povo e suas terras, queria apenas viver sossegado e em paz

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